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quarta-feira, 30 de julho de 2025

Além do Streaming: O colecionismo de discos como caminho para uma escuta mais profunda.

 



O The Tao of the Guitar faz 20 anos!

É com enorme alegria que celebramos  — em 2025 — duas décadas de existência do nosso blog The Tao of the Guitar. 

Desde 2005, dedico este espaço a compartilhar ideias, descobertas e paixões ligadas à arte de fazer música com o violão e à compreensão mais profunda daquilo que nos move enquanto músicos, ouvintes e, sobretudo, aprendizes.

Hoje iremos abordar um tema fundamental para o desenvolvimento artístico e intelectual de quem se dedica à música clássica: a importância do colecionismo de discos — especialmente CDs — para estudantes e ouvintes desse universo.


Muito além do streaming: por que colecionar discos importa

Vivemos a era do streaming, da abundância e do acesso instantâneo. No entanto, para quem busca formação musical sólida, especialmente na música clássica, a experiência do contato direto com discos revela riquezas que nenhuma plataforma digital consegue substituir.


Os encartes: aprendizado na palma da mão

Lembro com viva nitidez do quanto aprendi lendo encartes de CDs e LPs na minha juventude. Eles não são apenas complementos: trazem análises de obras, histórias dos intérpretes, detalhes sobre gravações — um rico material pedagógico, fundamental para quem quer ir além da escuta passiva e se embrenhar nos contextos histórico, estilístico e interpretativo das músicas estudadas.


A materialidade: foco, inspiração e concentração

Existe um poder inspirador inegável no objeto palpável. O simples fato de pegar um CD, apreciar a arte gráfica, folhear o encarte e posicionar o disco no player transforma a escuta em ritual: aumenta o foco, aprofunda a concentração e promove uma escuta ativa plenamente imersiva, muito diferente da relação fugaz e dispersa que, por vezes, temos ao ouvir música em meio a múltiplas distrações digitais.


Organização e pesquisa: a experiência do colecionador

O colecionismo permite construir uma biblioteca auditiva personalizada. Ao organizar minha estante por compositores, intérpretes ou escolas interpretativas, consigo visualizar relações, tradições e evoluções musicais de modo que nenhum serviço de streaming proporciona. Em música clássica isso é essencial: dificilmente playlists digitais respeitam movimentos de sonatas, sinfonias, suítes — e, para o entendimento do todo, ouvir essas obras de forma integral faz toda diferença.


Qualidade de som: o CD reina absoluto (ao lado do bom vinil)

Para quem exige qualidade sonora — dinâmica, silêncio, transparência —, nada supera o CD, sobretudo em comparação com arquivos comprimidos do streaming. Vinil também ocupa um lugar histórico e afetivo, mas o CD traz praticidade, baixíssimo ruído e precisão, fatores decisivos em repertórios com nuances detalhadas, como a música de câmara, as gravações históricas ou as gravações de instrumentos solo (Violão, Alaúde, Piano, Cravo etc ... ou mesmo instrumentos de corda friccionada tocando obras solo como as Suites para Celo de Bach , por exemplo).


O papel de plataformas como Discogs — e a compra online

Hoje, comprar CDs novos tornou-se tarefa quase exclusivamente digital. Lojas físicas rarearam, mas a Amazon, Imusic e outras plataformas viabilizam que continuemos a alimentar nossas coleções. E, para raridades, edições especialíssimas ou pesquisa minuciosa de informações técnicas e históricas, o Discogs é fonte indispensável: ali catalogo parte da minha coleção, Sigo aprendendo nos fóruns e, por vezes, adquiro discos de outros apaixonados mundo afora.


Entendendo discografias: pesquisa e trajetória interpretativa

Para o estudante de música clássica, mapear discografias de intérpretes é fonte de descobertas inesgotáveis. Como mostra o trabalho do professor Sidney Molina, “O Violão na Era do Disco: interpretação e desleitura na arte de Julian Bream”, muito do repertório do violão e de outros instrumentos se construiu pelas gravações — conhecer as diferentes leituras de uma mesma obra é uma das maiores aventuras do ouvinte atento, trazendo ensinamentos que vão (muito) além das partituras.


Por que abandonar o colecionismo empobrece o ouvinte clássico

A cultura do colecionismo preserva história, memória afetiva, profundidade intelectual. Quem ignora completamente esse universo tende a perder a chance de explorar abordagens interpretativas, trajetórias editoriais, partituras raras, encartes informativos — e, acima de tudo, abdica de uma relação mais íntima e comprometida com o ato de ouvir música.


Minha história com discos: entre memórias e redescobertas

Sou uma criança dos anos 70. Cresci em uma casa inundada por discos — vinil, fitas K7 (originais e gravadas), fitas de rolo e, a partir dos anos 80, os ainda raros e caríssimos CDs. Meu pai era fã inveterado de ópera, jazz, música de câmara, orquestra, MPB — e audiófilo de primeira: nossa sala guardava um sistema HI-FI lendário, com um receiver Sansui quadrifônico, toca-discos Philips, tape-deck AKAI, gravador de rolo ("Reel to Reel") AKAI e, depois (nos anos 80), um CD player Sony que tocava, entre outros, as sinfonias de Beethoven em edições japonesas (ainda vivas em minha coleção).

Nota: as imagens a seguir são apenas ilustrativas.






A trilha sonora da casa transitava pelos universos mais plurais: música antiga, frevo, música francesa, folclores do mundo, violão solo, e por influência dos meus irmãos, rock dos anos 70 como Pink Floyd, Led Zeppelin, Beatles e Stones. Eram tempos de descobertas e aprendizado coletivo em família.

E tinha também o aprendizado com os amigos e com as famílias de amigos próximos. Meus grandes amigos de infância Alain Guerra e Mathias Anguita Echiburu foram importantíssimos nesse sentido em minha formação musical. Muito dos meus gostos por rock dos anos 70 se deram também por causa deles. O tio de Alain ("Tio Dido") tinha uma coleção imensa de discos com materiais que eram completamente inacessíveis pra nós na época... "Dido" era generoso o suficiente pra deixar as crianças ouvirem. Devo muito a esses dois grandes amigos e às suas famílias. Não consigo mensurar o quanto aprendemos juntos ouvindo tantos discos e investigando minuciosamente as capas e encartes daquela coleção incrível. É uma memória que sempre inunda de gratidão o meu coração.

No final dos anos 80, após a perda do meu pai, os vinis e a era do HI-FI começaram a desaparecer lá em casa. Boa parte dos equipamentos foi se desfazendo aos poucos — era a ascensão do Walkman, do Discman, daqueles Boombox nem sempre agradáveis — e o ritual de comprar vinil já não tinha o mesmo encanto para nós. Mesmo assim, os discos mais importantes permaneceram protegidos, quase como relíquias familiares, e ninguém tinha coragem de abrir mão de algo tão significativo. Aos poucos, fui adquirindo CDs nos anos 90 e 2000, mas não me via como colecionador: eu simplesmente queria ouvir música, fosse nos grandes “bolachões” ou nos compactos CDs, sempre atento aos encartes, que eu adorava folhear.

Quando a internet chegou de vez no meu dia a dia, já nos anos 2000, fiquei fascinado pela possibilidade de baixar música com softwares nada ortodoxos (alguns deles usavam tapa-olho, tinham mão de gancho, perna de pau e bebiam rum) — foi a fase do E-Mule, com HDs abarrotados de álbuns, discografias inteiras e encartes digitalizados. Isso expandiu meu universo musical enormemente, até porque os próprios professores da universidade incentivavam a ouvir de tudo. Durante esse período importante, aprendi muito apenas explorando aquele oceano musical digital. Depois vieram os smartphones e o streaming, que no início me entusiasmaram, mas, (um pouco mais tarde) quando eu já era um professor, fui me dando conta do que estávamos deixando para trás ao abandonar o contato físico com os álbuns. Uma saudade dos discos começou a crescer, uma vontade de retomar aquela relação tátil e concentrada com a música.

Foi então que resolvi remontar um sistema HI-FI e reestruturar minha coleção de discos. Alguns discos de vinil, e, também, alguns CDs haviam sobrevivido apenas como lembranças da infância e juventude; cuidei deles, limpei cada peça e voltei a comprar novos discos, percebendo, agora com mais consciência, que meu formato preferido é mesmo o CD — prático, eficiente e perfeito para música clássica. Meu sistema HI-FI atualmente é enxuto e funcional: um par de monitores Edifier S-1000 MKII, notebook com interface Scarlet 1818, um DAC/Preamp Fiio, CD Player TEAC CD-P650, toca-discos Audio-Technica LP-120 e fone Audio-Technica ATH M50x. Aprender sobre DAC, Toslink e tantos detalhes técnicos me fez enxergar de vez o potencial impressionante do CD, especialmente quando o equipamento corresponde. Com certeza, meu Sistema atual não é um grande sistema como o que meu pai tinha nos anos 70 ... mas tenho, como meu equipamento, um som muito mais preciso de CDs, algo que eu não sonhava ser possível. O uso dos DACs dedicados para CDs e as diferentes maneiras de conversão do sinal, abriram portas oníricas pra audição das mini-bolachinhas prateadas; além do acesso ao streaming, claro (sim, eu uso streaming também ... não seja radical). 

:)

Nota: as imagens a seguir são apenas ilustrativas.





Com o novo sistema montado, comecei realmente a me entender como colecionador — vendo nos discos um capítulo vivo do meu caminho musical. Passei a mergulhar ainda mais nas informações dos encartes, nas histórias dos intérpretes, nas curiosidades de selos e gravações. Aos poucos, comecei a compartilhar esse olhar com alunos e colegas no Conservatório Pernambucano de Música, sentindo que era fundamental alertar a todos sobre o valor da mídia física e do colecionismo, e sobre tudo o que se perde quando abandonamos isso sem reflexão.

Hoje, minha coleção tem cerca de 150 LPs e aproximadamente 1.100 CDs, sendo essa última parte ampliada por aquisições pessoais e, também, por doações generosas. Estes números são apenas uma especulação, pois realmente não fico contando. Compartilho esse amor pelo colecionismo de discos com alunos e colegas, sempre ressaltando: a mídia física é um refúgio para a alma, uma ponte entre o passado e o presente, entre o mundo material e o sonho, entre o afeto e a erudição musical.

Vou deixar aqui algumas fotos reais do meu atual Sistema HI-FI. São imagens descompromissadas e triviais do dia-a-dia de estudos e escutas ... por favor, não reparem a bagunça.

:)












O convite

Se você chegou até aqui, espero ter despertado a vontade de explorar mais o mundo dos discos — por aqui, em outros posts do The Tao of the Guitar, você encontra muitas indicações de álbuns essenciais para ouvir, mergulhar e aprender. E, para os curiosos, convido a visitar a parte da minha coleção que cataloguei no Discogs. Que esse blog continue sendo, por anos a fio, um ponto de encontro entre a paixão pelo violão, o amor pelos discos e a busca incessante pelo conhecimento musical.

Veja aqui minha página do Discogs: https://www.discogs.com/user/jpguitar

e o nosso álbum incrível de hoje:

Lang Lang - Bach: Goldberg Variations (Extended Edt.)


https://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_kxtLPf52mtVuboPQsZRc2d7giykhmGIjo&si=WeoWeWxe4OUHYPYX


Grande abraço musical.

Boas escutas e ótimos estudos.

[]

João Paulo Pessoa.

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Nota: Esse texto foi produzido com auxílio do "Mecanismo de busca com inteligência artificial e processamento avançado de linguagem natural" denominado Perplexity. 

"A Perplexity AI é um mecanismo de busca com IA que entende e responde perguntas com respostas completas"

(https://www.perplexity.ai/)

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Exercício de escuta musical: O Relax Requiem op. 100 de Ernst Widmer, a Cantata Bwv 60 de J. S. Bach e o Concerto para violino de Alban Berg / Music listening exercise: The Relax Requiem op. 100 by Ernst Widmer, the Cantata Bwv 60 by J. S. Bach and the Violin Concerto by Alban Berg.

 Olá ... de volta ao blog com mais uma postagem.

Resolvi recentemente fazer um vídeo no youtube para compartilhar com alunos e amigos um trecho de um disco de vinil da minha coleção. Como esse é um fonograma um pouco raro, achei pertinente e interessante compartilhar pelo menos um trecho. O álbum em questão é esse:



https://www.discogs.com/release/13371224-Ernst-Widmer-Alfredo-Esteban-Rey-Hans-J%C3%BCrgen-Ludwig-Conjunto-M%C3%BAsica-Nova-UFBA-10-Anos-1973-1983

E o trecho que decidi compartilhar no youtube foi o lado A do LP, que contem a obra "Relax Requiem" opus 100 do compositor suiço/brasileiro Ernst Widmer. Até aí tudo bem ... eu já tinha ouvido algumas vezes a obra e sempre a considerei uma peça interessante e intrigante. Mas, ao estudar um pouquinho mais profundamente algo interessante, começamos a desenrolar um maravilhoso novelo de linha que nos leva a uma incrível aventura intelectual. Quando comecei a desenrolar a linha e entender o caminho da obra, lembrei muito mesmo das conversas em sala de aula com meus alunos. Sempre digo em sala de aula que "para ser um músico virtuoso, precisa ser antes de tudo um ouvinte virtuoso de música e isso requer prática". Pois bem, como todo professor bem sabe, é preciso ser aluno antes de tudo para ser professor ... é preciso ser aluno pra vida toda e ter sempre a "mente de principiante". O que aconteceu ao pesquisar um pouco sobre o compositor do Relax Requiem op. 100, foi que me deparei com um compositor incrivel que não conhecia. Ernst Widmer tem um catálogo incrível de obras escritas para vários instrumentos (inclusive o violão), e sua obra Relax Requiem op. 100 tem conexão direta com a Cantata Bwv 60 e uma provável ligação de afetividade intelectual com o Concerto para Violino de Alban Berg. Eu também não conhecia essas duas obras e fiquei numa felicidade incrível ao descobrir essas conexões e vislumbrar um imenso campo para estudo, que amplia minhas possibilidades de evolução como ouvinte de música. 

Então vamos por partes. Primeiro vou deixar aqui algumas breves informações biográficas sobre Ernst Widmer e alguns links, e depois vou discorrer rapidamente sobre as três obras em questão e também deixar algumas ligações pra ajudar quem quiser se aprofundar um pouco mais.

"Ernst Widmer (1927-1990) foi um compositor, regente, pianista, professor e pedagogo musical suíço-brasileiro. Natural da Suíça, veio para o Brasil em 1956 a convite de Hans-Joachim Koellreutter. Instalou-se em Salvador, onde atuou como professor na Escola de Música da UFBA. No ano de 1960 naturalizou-se brasileiro. Entre seus alunos destacam-se Lindembergue Cardoso, Jamary Oliveira e Paulo Costa Lima. Sua obra contempla traços do folclore musical baiano e abrange vários gêneros musicais. Sua produção artística chega ao opus 173 e abrange vários gêneros musicais (peças didáticas, religiosas, de concerto, ópera, balé, música para cinema e teatro) e enorme variedade de formações vocais e instrumentais. Foi membro da Academia Brasileira de Música, tendo ocupado a cadeira 31. Por desejo do compositor, a Ernst Widmer Gesellschaft, de Aarau (na Suiça), mantém seus manuscritos autógrafos e detém seus direitos autorais." (Wikipedia)

Na wikipedia não diz isso, mas o grande artista brasileiro Tom Zé foi aluno de Widmer e de Koellreutter também. Essa informação está na pagina oficial de Tom Zé: https://tomze.com.br/

A Ernst Widmer Gesellschaft, uma fundação criada para difundir e proteger sua obra, publicou em alemão um catálogo com suas obras: http://www.ernstwidmer.ch/

A compositora e musicóloga Ilza Nogueira publicou esse catálogo, através da UFBA, em português e inglês:

Ao consultar o catálogo percebemos a existência de 4 obras para violão solo.

1- Serenada, op. 113

2- Tiradentes, op. 119

3- Cinco peças para violão op. 174

4- Variedade (sic.) Variações progressivas sobre "Bão-balalão" - sem nº de opus


Encontrei gravações apenas das duas primeiras obras para violão de Widmer, executadas pelo violonista brasileiro Eric Moreira. Pelo que li até o momento, são as únicas gravações das obras para violão deste compositor. Aqui está o vídeo da Serenada op. 113 de Widmer tocada por Eric Moreira:




Voltando agora ao Relax Requiem op.100 de Ernst Widmer. Não tive ainda acesso à partitura dessa obra. Conheço ela apenas através do fonograma que possuo, e não sei de outra gravação dessa peça. Isto posto, vamos ao que pude entender. 
O LP tem outras duas obras de outros compositores além do Requiem de Widmer ... todas as obras que estão no disco foram submetidas por seus compositores em concursos de composição e receberam premiações. O opus 100 de Widmer, por exemplo, recebeu o 1º premio no "Concurso Latino-Americano" de 1978. Aqui está um pequeno trecho do texto presente no encarte do LP: 

"As três obras foram gravadas ao vivo. Compostas para os Concursos Latino-Americanos de 1978 e 1979, respectivamente, elas têm em comum o envolvimento com material preexistente. Assim, RELAX-REQUIEM origina-se no Choral da Cantata nº 60 de J.S.Bach, TRUNCA DINÂMICA nasce de um módulo rítmico extraído da chacarera, música popular argentina e, em ASFALTANDO O NORDESTE emergem e submergem melodias características nordestinas. Todavia não se trata de paródias."

Os compositores das outras duas obras presentes no LP são: Hans-Jürgen Ludwig e Alfredo Esteban Rey.


"Relax Requiem op.100

Requiem em forma de variações sobre um Choral de J S Bach

1º Requiem

2º Dies Irae

3º Memória

4º Lacrimosa

5º Lux Aeterna

Obteve o 1º premio no Concurso Latino Americano (de composição) de 1978.

Instrumentação: flauta, clarinete, fagote, trompa, trompete, piano, percussão e cordas friccionadas.

Baseia-se no Choral da Cantata BWV 60 de J S Bach."



Portanto, o Relax Requiem está explicitamente ligado com a Cantata Bwv 60 de J. S. Bach. Mais especificamente com o 5º e último movimento desta Cantata, o Choral. Esta é uma obra não muito extensa de J. S. Bach. A cantata inteira tem por volta de 15 a 17 min. dependendo da interpretação. E o último movimento, o Choral, tem menos de um minuto e meio de duração. 

A gravação que usei como principal referência para minha escuta nesse exercício foi a de Harnoncourt:

https://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_kIYbrZyhQGqIe1gnMpP5MLDlEdBIq6yOg&feature=share


Ouvir a cantata e seu Choral repetidas vezes me levou a duas questões: 
1) por que essa Cantata?  Ou mais especificamente, por que esse Choral? O que esse um minuto e meio tem de especial para Widmer? Claro, Bach é sempre incrível ... mas deve ter algo aí pra essa escolha tão específica; e 2) por que um Requiem? Por que Relax? 

Ao começar uma pequena investigação do Choral da Cantata de Bach apareceu a pista que nos leva a nossa terceira obra em questão nesse exercício. Mas vamos concluir essa parte do texto com mais algumas informações sobre a Cantata Bwv 60 de J. S.  Bach.

Esta obra conta com 5 movimentos, assim como o Requiem de Widmer. O titulo da cantata é "O Ewigkeit, du Donnerwort" (Ó Eternidade, você palavra de Trovão) e o Choral, que é o 5ºmov da cantata (com apenas 1:20 min), tem o título de "Es ist genug" ( "Basta").

https://en.wikipedia.org/wiki/O_Ewigkeit,_du_Donnerwort,_BWV_60


Neste link está um video bastante interessante com uma aula sobre a Cantata Bwv 60 de J. S. Bach.
(Em alemão com legendas em inglês): https://youtu.be/i6GqgOqtjQw

(...) "O coral de encerramento é "Es ist genug" (Basta). (O musicólogo) Dürr observa que a melodia é de Johann Rudolph Ahle, um predecessor de Bach como organista em Mühlhausen. A melodia começa com uma sequencia incomum de quatro notas progredindo por intervalos de segundas maiores (tons inteiros), juntos abrangendo o intervalo de um trítono, também chamado de "diabolus in musica". Durante o tempo de Ahle, (o trítono) era uma figura musical extrema, adequada para representar a passagem da alma da vida para a morte. (...) Alban Berg usou o cenário coral (sic.) de Bach em seu Concerto para Violino." (wikipedia)


Quando li essa última frase foi onde pensei: "opa! Eu conheço esse concerto? É uma obra bem famosa entre os violinistas ... acho que já ouvi. Será?" ... Não conhecia mesmo!

O motivo de quatro notas utilizado por Widmer, Bach e Berg são as notas fá, sol, lá e si natural. Formando, de fá até si, o intervalo de quinta diminuta ou quarta aumentada também conhecido no mundo da música antiga como "Diabolus in musica" (Trítono, três tons) ... O fato de esse intervalo musical ter uma ligação com "uma figura musical extrema, adequada para representar a passagem da alma da vida para a morte" poderia, por si só, justificar o título e a estrutura do Requiem Relax op 100 de Widmer. Mas e quanto a Berg? Não seria ele o guia que teria conduzido Widmer até Bach e especificamente até esse Choral? Será que o concerto tem algo de Requiem também? Por que Berg precisava de uma figura musical que simbolizasse a morte em seu concerto? Essas perguntas me levaram a baixar uma partitura do Concerto para Violino de Alban Berg no imslp ,e a procurar também uma boa gravação dessa obra. Eu não podia simplesmente abandonar o exercício na metade.

https://imslp.hk/files/imglnks/euimg/7/7f/IMSLP612921-PMLP9697-Berg_Violin_Concerto.pdf


A gravação que utilizei foi com a violinista Anne-Sophie Mutter:

https://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_kyX4gpyZw1Z0qs9zrG2J1eUw64wY0vl_8&feature=share


Nesse momento do meu exercício fiquei maravilhado com a beleza e complexidade do Concerto de Berg. E percebi, obviamente, que vou ter que estudar muito essa música pra ter algum domínio da compreensão da obra como ouvinte. "Fascinante", eu pensei mais uma vez. Resolvi que era o momento em que eu precisava contextualizar cronologicamente, e biograficamente, o concerto de Berg. Vou deixar aqui algumas informações que são facilmente encontradas na internet:


"O Concerto para Violino de Alban Berg foi escrito em 1935 (a partitura é datada de 11 de agosto de 1935). É provavelmente a peça instrumental mais conhecida e executada de Berg, na qual o compositor procurou conciliar diatonicismo e dodecafonia. (...) A peça resultou de uma encomenda do violinista Louis Krasner. Quando recebeu a comissão pela primeira vez, Berg estava trabalhando em sua ópera Lulu e não começou a trabalhar no concerto por alguns meses. O evento que o estimulou a escrever foi a morte por poliomielite de Manon Gropius, de 18 anos, filha de Alma Mahler (viúva do compositor Gustav Mahler) e Walter Gropius (Arquiteto, famoso por estar ligado ao movimento Bauhaus). Berg colocou Lulu de lado para escrever o concerto, que dedicou "À memória de um anjo". (...) Berg trabalhou na peça muito rapidamente, completando-a em poucos meses; acredita-se que seu trabalho no concerto foi em grande parte responsável por sua falha em completar Lulu antes de sua morte em 24 de dezembro de 1935. O concerto para violino foi o último trabalho que Berg completou. Em uma carta a Krasner datada de 16 de julho de 1935, Berg confessou:

"Ontem terminei a composição [sem a orquestração] do nosso Concerto para Violino. Provavelmente estou mais surpreso com isso do que você... o trabalho me deu cada vez mais alegria. Espero – não, tenho a convicção confiante – de ter conseguido."(...)

Alban Berg faleceu também em 1935. (...) sua peça mais conhecida é seu Concerto para Violino, no qual, assim como na maior parte do seu trabalho, combina a técnica dodecafônica com as passagens harmônicas tradicionais da música europeia.

Berg fazia parte da elite cultural de Viena durante o início do século XX. No seu círculo de amigos encontram-se os músicos Alexander von Zemlinsky e Franz Schreker, o pintor Gustav Klimt, o escritor e sátiro Karl Kraus, o arquiteto Adolf Loos, e o poeta Peter Altenberg. (...).

Faleceu provavelmente devido a picada de um inseto e ao consequente envenenamento sanguíneo, aos 50 anos." (Wikipedia)

links:

E com isso concluí meu exercício de escuta musical ligando três obras de diferentes épocas e refletindo sobre como a figura musical do trítono, que inspirou Bach e ligou o Concerto de Berg à obra do mestre barroco, serviu também de material para um Requiem misterioso de um compositor tão próximo à mim (um brasileiro, pernambucano e recifense) e que eu desconhecia totalmente, mesmo tendo esse fonograma em minha coleção por tanto tempo. As três obras têm uma relação com a morte. Mas talvez a obra de Widmer seja também um Requiem para Alban Berg, construído através de J. S. Bach. Foi como passei a ouvir o Relax Requiem opus 100 de Ernst Widmer. Como é incrivel a transformação que a contextualização faz em nossa percepção. O passo seguinte seria analisar tudo e ouvir mais vezes para desenvolver uma compreensão mais técnica e profunda de todo o material envolvido no exercício. E depois voltar e fazer tudo de novo. O caminho é, portanto, o objetivo em si mesmo.

O motivo do desejo de compartilhar isso aqui no blog é exatamente esse desenrolar do novelo de conexões e o prazer da investigação e da descoberta. Tocar um instrumento musical, e estudá-lo seriamente é, antes de tudo, ser ouvinte de música. Se perguntarmos a qualquer virtuosi de qualquer estilo qual foi seu caminho para o domínio de sua arte, com toda certeza ouviremos as palavras "ouvir música" como parte da resposta. Precisamos ouvir, de diversas maneiras, diversos tipos de música e entender de uma vez por todas que a habilidade de ouvir música tem que ser, assim como a prática do instrumento musical, trabalhada e exercitada constantemente.


Agradecimentos especiais a Maria Flor pela revisão,
e a C. A. da Silva pelas dicas.

Grande abraço e bons estudos.

:)

João Paulo Pessoa.







quarta-feira, 28 de julho de 2021

Suite Bwv 996 de J. S. Bach: exercitando comparar algumas interpretações.

 Olá .... 

essa vai ser mais uma daquelas postagens com sugestões de vídeo e áudio de uma mesma peça pra compararmos.



Já fiz isso em outros posts do blog. Acho que é muito importante para nosso desenvolvimento musical. Normalmente começamos nossa jornada no instrumento com a sensação de que teremos muito trabalho com as mãos e com o treino e adestramento das habilidades motoras de de nosso "mecanismo" técnico diretamente no instrumento ... no entanto, muito de nosso desenvolvimento está ligado na verdade à maneira como ouvimos. A música é extremamente (inter e) multi-discilpinar. Formar-se como um bom músico requer um estudo bastante amplo: conhecimento e habilidade técnica, controle motor, conhecimento teórico, histórico, estético, intuitivo, filosófico, artístico, psicológico, linguístico, cultural e por aí vai .... porém, algo que está intrínseco e obvio, mas que muitas vezes passa desapercebido é nossa habilidade como ouvintes de música. Um músico virtuoso precisa necessariamente ser um ouvinte virtuoso. Esse é infelizmente um aspecto tão óbvio quanto negligenciado em nossa formação geral. Por isso é tão importante desenvolver o hábito de comparar criticamente várias interpretações de uma mesma obra.

No nosso exercício iremos comparar algumas interpretações da Suite Bwv 996 de J. S. Bach, conhecida como a "Suite nº1 para Alaúde". Bem, antes vamos lembrar alguns detalhes importantes: é preciso conhecer um pouco sobre estilo, período histórico e informações específicas. Vou deixar alguns links pra ajudar nisso. Se você não sabe nada sobre música barroca: https://en.wikipedia.org/wiki/Baroque_music e/ou https://www.baroque.org/baroque ... Se você nunca ouviu falar de J. S. Bach (sério?): https://en.wikipedia.org/wiki/Johann_Sebastian_Bach

... e por fim, mas não menos importante, se você não conhece os termos "Lautenwerke" ou "Lute-Harpsichord" e/ou se você acha que a música de alaúde de J. S. Bach é mesmo pra alaúde ... melhor dar uma lida nesse outro post antes: http://thetaooftheguitar.blogspot.com/2010/02/lute-harpsichord.html


Bom ... preparado o caminho e esclarecidos todos os "se's" e "porém's", vamos às nossas versões da Suite Bwv 996 de J. S. Bach a serem comparadas. Resolvi começar com uma ótima versão ao alaúde da italiana Evangelina Mascardi. Importante prestar atenção à resolução das vozes, diferenças na textura das polifonias apresentadas e no fraseado mais característico dos músicos com prática de instrumentos de época:



No próximo exemplo teremos o famoso violonista David Russell interpretando a mesma obra. Observe a diferença de sonoridade do violão em relação ao alaúde, as diferenças de timbre, articulação, possibilidades de ornamentação, e mais  voltado para as escolhas interpretativas; perceba as diferentes escolhas dos andamentos, pontos de impulso, fraseados e concepções estéticas:




Agora vamos para nosso terceiro exemplo. Sugiro e recomendo muito fortemente as geniais interpretações do grande cravista Gustav Leonhardt (já deu pra ver que sou fã ne?) ... mas um outro ponto importante sobre este terceiro exemplo ... não estou passando aqui um vídeo do youtube, mas sim, um link para um áudio ... o álbum completo em uma plataforma de streaming de música. Outro ponto importante em nossa formação como ouvintes de música: tenha em mente que o que você vê altera a forma como você ouve. Sendo assim é fundamental que você tenha experiências diversificadas como ouvinte e que priorize ouvir mais do ver. Sugiro com muita veemência aos meus alunos que busquem ouvir mais álbuns e ver menos vídeos ... mas isso é uma discussão pra outro post. Na interpretação do mestre Leonhardt observe bem as diferenças na ornamentação, escolhas de andamento, pontos de impulso, reiterações de ritmos característicos de cada dança e também como as diferentes características do instrumento (Cravo/Harpsichord) são definitivos em certas escolhas interpretativas.

https://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_n-X5-wDFBFVhUAHKOPj5YlHgJ2aKFCeGg&feature=share

para os que não utilizam streaming de música vou deixar o link de uma playlist do álbum de Leonhardt de 1985:



Por hoje é só pessoal. 
Boa viagem, grande abraço musical e bons estudos.

:)
[]


JPP