(...) "O coral de encerramento é "Es ist genug" (Basta). (O musicólogo) Dürr observa que a melodia é de Johann Rudolph Ahle, um predecessor de Bach como organista em Mühlhausen. A melodia começa com uma sequencia incomum de quatro notas progredindo por intervalos de segundas maiores (tons inteiros), juntos abrangendo o intervalo de um trítono, também chamado de "diabolus in musica". Durante o tempo de Ahle, (o trítono) era uma figura musical extrema, adequada para representar a passagem da alma da vida para a morte. (...) Alban Berg usou o cenário coral (sic.) de Bach em seu Concerto para Violino." (wikipedia)
Quando li essa última frase foi onde pensei: "opa! Eu conheço esse concerto? É uma obra bem famosa entre os violinistas ... acho que já ouvi. Será?" ... Não conhecia mesmo!
O motivo de quatro notas utilizado por Widmer, Bach e Berg são as notas fá, sol, lá e si natural. Formando, de fá até si, o intervalo de quinta diminuta ou quarta aumentada também conhecido no mundo da música antiga como "Diabolus in musica" (Trítono, três tons) ... O fato de esse intervalo musical ter uma ligação com "uma figura musical extrema, adequada para representar a passagem da alma da vida para a morte" poderia, por si só, justificar o título e a estrutura do Requiem Relax op 100 de Widmer. Mas e quanto a Berg? Não seria ele o guia que teria conduzido Widmer até Bach e especificamente até esse Choral? Será que o concerto tem algo de Requiem também? Por que Berg precisava de uma figura musical que simbolizasse a morte em seu concerto? Essas perguntas me levaram a baixar uma partitura do Concerto para Violino de Alban Berg no imslp ,e a procurar também uma boa gravação dessa obra. Eu não podia simplesmente abandonar o exercício na metade.
https://imslp.hk/files/imglnks/euimg/7/7f/IMSLP612921-PMLP9697-Berg_Violin_Concerto.pdf
A gravação que utilizei foi com a violinista Anne-Sophie Mutter:
https://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_kyX4gpyZw1Z0qs9zrG2J1eUw64wY0vl_8&feature=share
Nesse momento do meu exercício fiquei maravilhado com a beleza e complexidade do Concerto de Berg. E percebi, obviamente, que vou ter que estudar muito essa música pra ter algum domínio da compreensão da obra como ouvinte. "Fascinante", eu pensei mais uma vez. Resolvi que era o momento em que eu precisava contextualizar cronologicamente, e biograficamente, o concerto de Berg. Vou deixar aqui algumas informações que são facilmente encontradas na internet:
"O Concerto para Violino de Alban Berg foi escrito em 1935 (a partitura é datada de 11 de agosto de 1935). É provavelmente a peça instrumental mais conhecida e executada de Berg, na qual o compositor procurou conciliar diatonicismo e dodecafonia. (...) A peça resultou de uma encomenda do violinista Louis Krasner. Quando recebeu a comissão pela primeira vez, Berg estava trabalhando em sua ópera Lulu e não começou a trabalhar no concerto por alguns meses. O evento que o estimulou a escrever foi a morte por poliomielite de Manon Gropius, de 18 anos, filha de Alma Mahler (viúva do compositor Gustav Mahler) e Walter Gropius (Arquiteto, famoso por estar ligado ao movimento Bauhaus). Berg colocou Lulu de lado para escrever o concerto, que dedicou "À memória de um anjo". (...) Berg trabalhou na peça muito rapidamente, completando-a em poucos meses; acredita-se que seu trabalho no concerto foi em grande parte responsável por sua falha em completar Lulu antes de sua morte em 24 de dezembro de 1935. O concerto para violino foi o último trabalho que Berg completou. Em uma carta a Krasner datada de 16 de julho de 1935, Berg confessou:
"Ontem terminei a composição [sem a orquestração] do nosso Concerto para Violino. Provavelmente estou mais surpreso com isso do que você... o trabalho me deu cada vez mais alegria. Espero – não, tenho a convicção confiante – de ter conseguido."(...)
Alban Berg faleceu também em 1935. (...) sua peça mais conhecida é seu Concerto para Violino, no qual, assim como na maior parte do seu trabalho, combina a técnica dodecafônica com as passagens harmônicas tradicionais da música europeia.
Berg fazia parte da elite cultural de Viena durante o início do século XX. No seu círculo de amigos encontram-se os músicos Alexander von Zemlinsky e Franz Schreker, o pintor Gustav Klimt, o escritor e sátiro Karl Kraus, o arquiteto Adolf Loos, e o poeta Peter Altenberg. (...).
Faleceu provavelmente devido a picada de um inseto e ao consequente envenenamento sanguíneo, aos 50 anos." (Wikipedia)
links:
E com isso concluí meu exercício de escuta musical ligando três obras de diferentes épocas e refletindo sobre como a figura musical do trítono, que inspirou Bach e ligou o Concerto de Berg à obra do mestre barroco, serviu também de material para um Requiem misterioso de um compositor tão próximo à mim (um brasileiro, pernambucano e recifense) e que eu desconhecia totalmente, mesmo tendo esse fonograma em minha coleção por tanto tempo. As três obras têm uma relação com a morte. Mas talvez a obra de Widmer seja também um Requiem para Alban Berg, construído através de J. S. Bach. Foi como passei a ouvir o Relax Requiem opus 100 de Ernst Widmer. Como é incrivel a transformação que a contextualização faz em nossa percepção. O passo seguinte seria analisar tudo e ouvir mais vezes para desenvolver uma compreensão mais técnica e profunda de todo o material envolvido no exercício. E depois voltar e fazer tudo de novo. O caminho é, portanto, o objetivo em si mesmo.
O motivo do desejo de compartilhar isso aqui no blog é exatamente esse desenrolar do novelo de conexões e o prazer da investigação e da descoberta. Tocar um instrumento musical, e estudá-lo seriamente é, antes de tudo, ser ouvinte de música. Se perguntarmos a qualquer virtuosi de qualquer estilo qual foi seu caminho para o domínio de sua arte, com toda certeza ouviremos as palavras "ouvir música" como parte da resposta. Precisamos ouvir, de diversas maneiras, diversos tipos de música e entender de uma vez por todas que a habilidade de ouvir música tem que ser, assim como a prática do instrumento musical, trabalhada e exercitada constantemente.
Agradecimentos especiais a Maria Flor pela revisão,
e a C. A. da Silva pelas dicas.
Grande abraço e bons estudos.
:)
João Paulo Pessoa.